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Esta postagem foi publicada em 15 de janeiro de 2010 e está arquivada em Colunas.

A maior ressaca dos últimos trinta anos

joao_4Repórter do Panorama relembra como fotografou uma das maiores demonstrações da força da natureza: a ressaca que assustou o litoral gaúcho no Ano Novo de 1980.
“Uma nota da coluna “Há trinta anos”, da Zero Hora do 2 de janeiro me fez viajar no tempo e lembrar uma data que eu nunca esqueci, mas cuja efeméride estava quase passando batida por mim. O Ano Novo de 1980, o último que passei com minha mãe, que viria a falecer precocemente cinco meses mais tarde, vitimada por um câncer. Na época, com 12 anos de idade, eu ainda dava pouca importância a essa coisa de troca de ano e naquela data específica o significado maior era a expectativa pela mudança de década. Seria a primeira vez que eu sentiria tal experiência, pois na anterior, em 70, era ainda quase um bebê de pouco mais de dois anos de vida.
O Ano Novo de 80 era também o quarto seguido em que minha família passava o feriadão de final de ano hospedada no Hotel Beira Mar, em Mariluz, local que havíamos eleito como ideal para veranear por sua proximidade com o mar, uma vez que se situa na rua mais próxima da orla. Desta vez, entretanto, não ficamos no hotel para participar da ceia que é servida aos hóspedes e fomos, por algum motivo que ignoro, passar a noite da virada na casa de amigos taquarenses em Tramandaí. Não guardo na memória, também, lembrança de que o clima daquele dia estivesse muito chuvoso, mas é provável que, pelo menos, um vento forte estivesse ocorrendo, pois lembro que ficamos o tempo todo dentro de casa, o que não seria comum numa noite de verão em Tramandaí.
É claro que naquela época também não havia se disseminado ainda o hábito da queima de fogos de artifício que viceja atualmente, sendo comum apenas o estouro de foguetes mais comuns. Alheios aos rigores do clima do lado de fora da casa, somente fomos nos dar conta da grandeza da ressaca que começou a atingir o litoral gaúcho já nas primeiras horas de 1980 quando chegamos de volta ao hotel, em Mariluz. Ainda na estrada entre as duas praias, o vento forte chamou a atenção de meus pais, mas somente quando nos aproximamos do hotel foi que Seu Raul e Dona Harda se espantaram com uma cena inédita: as ruas ao redor do hotel tomadas pela água do mar.
Quando desembarcamos na frente do hotel, fomos alertados por outros hóspedes e pelos funcionários do estabelecimento sobre o que estava ocorrendo: a ressaca havia feito o mar avançar sobre a praia, inundando as ruas mais próximas. Na escuridão da noite, sem poder dimensionar o quanto o fenômeno realmente era forte, acabamos indo logo dormir. Somente na manhã seguinte conseguimos observar o quanto havia provocado de destruição ao atingir cômoros de areia e casas mais próximas da água.
Durante boa parte da manhã, as ondas ainda seguiam invadindo a faixa de areia litorânea. Mesmo com o tempo fechado e ventoso, o que nos obrigava a usar o máximo de roupas possível, nossa diversão naquela manhã era observar a força com que o mar invadia a cidade. O trecho de até duas quadras da avenida central de Mariluz foi totalmente tomado pelas ondas, que atingiam a parede lateral do hotel. Lembro que, junto com meu pai e irmãos mais velhos, consegui chegar à parte mais alta de um grande cômoro de areia situado do outro lado da avenida, já na beira do mar, de onde Seu Raul fez várias fotos. Eu havia herdado uma pequena máquina fotográfica de meu irmão Geraldo e também fiz algumas fotos, duas das quais reproduzo nesta página. Numa delas, já antevendo meu tino jornalístico, que somente iria aflorar anos depois, flagrei meu pai registrando com a sua máquina fotográfica o quanto as águas penetravam Mariluz adentro.
A ressaca voltou a ter outro ponto de pico por volta do meio-dia daquele 1º de janeiro, mas, aos poucos, o mar retornou ao seu nível normal. Mesmo assim, somente nos dias seguintes, quando pudemos voltar a circular tranquilamente pela orla, é que foi possível avaliar o tamanho dos estragos nos prédios mais próximos da orla. Lembro que nos verões seguintes ainda era possível observar vestígios dessa destruição, certamente uma das mais fortes que o litoral gaúcho já sofreu. Pelo menos, desde então, nunca mais ouvi falar em outra tão forte, apesar de ressacas serem mais comuns do que imaginamos.”
João Müller

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