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Esta postagem foi publicada em 26 de fevereiro de 2010 e está arquivada em Colunas.

Os incêndios que assustaram Taquara

incendio2Lançada em janeiro, a coluna Testemunha Ocular retorna com mais um texto do jornalista João Müller, desta vez contando como fotografou um dos maiores sinistros que o Vale do Paranhana já presenciou. O espaço é aberto também à participação dos leitores, que podem enviar ao Panorama, via e-mail, texto e/ou fotos de algum momento importante da história que tenham presenciado.
Para produzir este texto, precisei me valer dos arquivos do Panorama, uma vez que não lembrava exatamente o ano dos acontecimentos, apesar de nunca ter apagado de minha memória as imagens dos dois grandes incêndios, entre vários outros, que testemunhei em minha vida. Lembrava somente  de ter sido num início de dezembro os dois sábados seguidos em que a cidade de Taquara foi assustada por sinistros de grandes proporções, que também revelaram a fragilidade do sistema de combate ao fogo que o município enfrentava na época, situação que, aliás, não mudou muito de lá para cá.
A foto que ilustra esta coluna foi feita por mim no início da tarde do dia 5 de dezembro de 1981 e revela a proporção da coluna de fumaça preta que se elevava a partir do fogo numa das unidades de produção da Calçados Azaléia. Na ocasião, eu residia no centro da cidade e estava em casa, um sobrado na rua Júlio de Castilhos, quando avistei pela janela a imensa coluna de fumaça. Passavam poucos minutos do meio-dia e meu pai, o comerciante Raul Müller, havia deitado para tirar um cochilo após o almoço. Então com recém-completados 14 anos de idade, eu estava na sala assistindo à TV quando notei a fumaça, que me chamou a atenção porque até então nunca tinha visto nada igual.
Chamei meu irmão mais velho, Geraldo, que logo considerou ser aquilo fruto de um incêndio de grandes proporções. Como meu pai já dormia, meu irmão resolveu pegar seu próprio carro e ir até o local, evidentemente me levando junto. Curioso, não esqueci de pegar minha máquina fotográfica e foi com ela que fiz pelo menos quatro registros do incêndio que destruía o prédio, onde nos últimos anos funcionou a danceteria Revictor. Assustado com a proporção do fogo, meu irmão não deixou que eu chegasse mais perto do local. Ainda naquela tarde, já junto com meu pai, voltei novamente ao local e ficamos um bom tempo assistindo ao trabalho dos bombeiros, que se limitavam a jogar água e espuma química na vã tentativa de apagar as chamas. Com grande quantidade de material químico em seu interior, o lugar ardeu por mais de 24 horas.
Lembro que, curioso como sempre foi, meu pai chegou a ir ao lugar mais duas  vezes, sempre comigo a tiracolo, uma delas na noite do sábado, quando as chamas ainda eram visíveis no interior do prédio. No dia seguinte, os bombeiros já faziam o rescaldo, mas ainda saía muita fumaça do local.
Uma semana mais tarde, quando o incêndio da Azaléia ainda era motivo para conversas preocupadas, outro sinistro assustou os taquarenses. Feliz por estar iniciando o período de férias escolares, eu dormia até mais tarde na manhã de sábado, quando fui acordado por sirenes de carros da polícia e gritos. Abri a janela do quarto para ver o que estava ocorrendo e ouvi pessoas na rua dizendo que “a Bomlar tá pegando fogo”. Corri para os fundos do sobrado e, da janela da cozinha, vi a fumaça, mas logo identifiquei que o incêndio não era no prédio da rua Guilherme Lahm, onde hoje há uma filial da Colombo. O que se incendiava era a antiga sede da loja taquarense, na esquina das ruas Tristão Monteiro e Federação.
Vesti-me rapidamente e desci correndo as escadas, peguei minha antiga bicicleta Monareta e fui atrás de mais um incêndio. Segui pela Guilherme e virei na Federação, mas parei no meio da quadra, onde os próprios moradores vizinhos já corriam assustados com as explosões dos botijões de gás armazenados no porão do prédio, que também servia como oficina de manutenção de eletrodomésticos. Ainda de bicicleta, dei uma volta na quadra, parando na esquina da Tristão com a Ernesto Alves, onde fiquei um bom tempo, acompanhando o trabalho de combate às chamas, mas, desta vez, não houve grandes dificuldades para apagá-las. Antes mesmo do meio-dia o fogo já estava controlado, mas a sequência de incêndios, como eu mesmo registraria numa retrospectiva do Panorama publicada em 1995, deixou a cidade assustada com as deficiências dos bombeiros.
João Alberto Müller

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