Os jovens que hoje pilotam suas motocicletas pelas movimentadas ruas do centro de Taquara, talvez, nem imaginem que houve uma época em que o simples ato de ser dono de um veículo do tipo era sinônimo de rebeldia. E não faz tanto tempo assim, como comprova a história que vou contar hoje, relembrando mais um episódio que tive a oportunidade de testemunhar na minha adolescência.
Enquanto hoje ficamos surpresos quando vemos um motociclista trafegando sem capacete, os mais velhos, da minha geração em diante, certamente lembram que, no início dos anos 80, a situação era inversa: chamava a atenção o piloto que circulasse com o equipamento de proteção na cabeça. Na época, o código de trânsito já decretava o capacete como de uso obrigatório, mas a verdade é que a legislação era muito desrespeitada. Para piorar, em várias cidades, como ainda ocorre hoje nas regiões norte e nordeste do Brasil, a Brigada Militar, então responsável pela fiscalização de trânsito, era conivente com a prática de não se usar o acessório.
Em 1983, de repente, o comando local resolveu cumprir à risca a lei, passando a multar os motoqueiros. Na época, ainda era pequeno o número de pilotos das duas rodas em Taquara e certamente quase todos se conheciam. Não foi difícil que um grupo logo resolvesse fazer um protesto contra a ação policial. Foi então organizada uma passeata, marcada para uma tarde de sábado no mês de novembro daquele ano. Outro detalhe para os mais jovens: naquela época o comércio fechava na tarde deste dia da semana, e o centro de Taquara ficava praticamente às moscas, a ponto de eu, então com 14 anos, e meus vizinhos, transformarmos a calçada da rua Júlio de Castilhos em campo de futebol.
E, certamente, foi por estarmos na rua brincando que acabamos deparando com aquela movimentação toda. E foi então que, pela primeira vez na vida, vi a Brigada montar uma operação de vulto para enfrentar perigosos “meliantes”. Quando o grupo de motoqueiros ingressou na Júlio, virando a esquina da Pinheiro Machado, ao lado da igreja católica, acabaram todos caindo numa arapuca. Duas viaturas da Brigada se posicionaram na esquina da rua Marechal Floriano, trancando a saída, enquanto outras fecharam a passagem na frente das igrejas.
Deve ter sido usado quase todo o efetivo da corporação local, obrigando os motociclistas a pararem. Como mostra a foto feita pelo Panorama na época, os veículos foram estacionados num dos lados da rua, enquanto os motoqueiros negociavam com o comandante, capitão Edward Siqueira. Registrado na época pelo jornal, o fato acabou sendo rememorado em edição retrospectiva por ocasião dos 20 anos do Panorama, em setembro de 1995. Segundo a matéria, a situação chegou a uma solução negociada, sem que nenhum motoqueiro fosse multado, mas somente anos mais tarde, com o recrudescimento da lei e o aumento dos perigos no trânsito, foi que o capacete finalmente acabou sendo adotado de vez pelos motociclistas.
João Alberto Müller
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João A. Müller


