Aquela madrugada de sábado havia sido de muita chuva em Taquara. Era 8 de agosto de 2009, véspera do Dia dos Pais, e eu tive que levantar bem cedo para atender a um compromisso que tinha assumido. Um grupo de trabalho voluntário do qual participo iria servir um galeto naquele dia, e precisávamos começar os preparativos bem cedo para que a refeição estivesse pronta no horário marcado.
Devia ser perto das cinco e meia da manhã quando saí de casa, a pé, pois o local ficava perto de onde resido, no centro da cidade. Ainda era escuro, as ruas estavam totalmente desertas, e não tive como deixar de sentir uma certa sensação de perigo no ar. Desci pela Rio Branco, sem avistar nenhuma viva alma, a não ser os ocupantes de um carro que passou lentamente por mim.
Quando dobrei a esquina da Júlio de Castilhos, todavia, logo pude perceber que algo diferente estava acontecendo. Havia várias viaturas do Corpo de Bombeiros e da Brigada Militar estacionadas bem no meio da rua, na quadra entre Guilherme Lahm e Marechal Floriano. Os fachos de luz refletiam-se nos prédios próximos, ao mesmo tempo em que se podia avistar grande movimentação de policiais.
Aquele era meu caminho e, por isso, resolvi me aproximar, já impulsionado pela curiosidade jornalística que a ocasião naturalmente despertava. Identifiquei-me aos que estavam ali e logo fui informado de que haviam tentado arrombar os caixas eletrônicos do banco Itaú.
Havia bombeiros dentro da agência, em meio a muita fumaça, tentando apagar o fogo que se formara dentro dos terminais, pois os bandidos tinham utilizado maçaricos para abrir os equipamentos. Informaram que alguns tinham sido presos em flagrante e ainda estavam ali, algemados, deitados na frente do banco, à espera de remoção.
Eu estava desprevenido de máquina fotográfica, mas logo concluí que precisaria registrar o fato. Avisei meus colegas do galeto que chegaria atrasado e voltei ao jornal, que estava fechado àquela hora, para buscar o equipamento necessário.
Quando cheguei de volta ao banco, alguns minutos depois, os assaltantes já não se encontravam mais ali, mas a operação para apagar o incêndio prosseguia. Sargento Dias e mais um colega bombeiro, vestindo máscaras e outros apetrechos, estavam dentro da agência, tentando extinguir as chamas com algum tipo de pó químico, mas parecia não funcionar. Avisaram-me de que não poderia entrar ali, pois, além de o local estar isolado, havia o risco de intoxicação em função da fumaça que se desprendia do material em combustão.
Gentilmente, Sargento Dias se dispôs a tirar algumas fotos frontais dos terminais incendiados, as quais publicamos com exclusividade na edição seguinte do Panorama, assim como alguns registros que eu mesmo fiz do lado de fora da agência.
O caso acabou ganhando grande repercussão na imprensa e entrou nas estatísticas policiais como mais um dos prováveis ataques da famosa “Quadrilha dos Caixeiros”, parte da qual acabou sendo desbaratada há poucos dias, numa operação que resultou com várias prisões aqui mesmo em Taquara. Eu mesmo fui chamado a depor na Polícia Civil e na Brigada Militar sobre o ocorrido naquela madrugada, devido a alguns rumores que surgiram sobre suposto sumiço de dinheiro durante a ocorrência.
Não sei no que resultaram as investigações que foram feitas, mas procurei dar a minha contribuição, relatando exatamente o que testemunhei. Para os leitores do Panorama, que foram privilegiados com nosso material exclusivo, posso dizer com convicção que aquela inesperada cobertura acabou sendo o legítimo caso do repórter que estava no lugar certo, na hora certa.
Alvaro Bourscheidt
Esta postagem foi publicada em 23 de julho de 2010 e está arquivada em Colunas.


