Caixa Postal 59
Esta postagem foi publicada em 7 de outubro de 2011 e está arquivada em Caixa Postal 59.

Todo mundo é uma ilha

Final de tarde em Taquara. Auge do verão. As pessoas procuram não ficar na rua muito tempo, parecem buscar refúgio em qualquer lugar que tenha ar condicionado. O calor sufocante deixa as ruas praticamente vazias. Seguimos rodando, eu e o Cris. Parecíamos dois guepardos na savana, buscando por uma presa desavisada. Um petisco. Como se guepardos carregassem bolsa térmica e um exemplar surrado de Sexus, do Henry Miller, a tiracolo. Cris reclamou do som. A música soava gélida e triste, contrastando em muito do clima tórrido. “Queria algo mais sentimental”, queixou-se resignado.  A busca se mostrou infrutífera. Foi então que Cris com o dedo em riste esbravejou uma surrada metáfora: “vamos subir o morro agora.” Cortina rápida.
Movido pela curiosidade e influência do livro que carregava, acabei cedendo. Eufórico, ele foi adentrando o estabelecimento demonstrando intimidade com o lugar envolto em luz negra. Após rápida negociação desapareceu por entre as cortinas. Uma mariposa pousou no meu colo sem aviso. Desconversei dizendo que só estava ali esperando alguém. “Cerveja?”, insistiu. Em resposta abri a bolsa térmica. Gentilmente, fui convidado a esperar lá fora. Fumando, duas funcionárias reclamavam da falta de romantismo dos dias atuais. “Cerveja?”, ofereci. Passada a desconfiança inicial, já estávamos filosofando sobre a vida, quando Cris apareceu com um sorriso triunfante: “tua vez”. Com a habitual sutileza de um estivador ele havia me incluído na negociação, pensando estar me prestando um favor inestimável. Declinei sem pestanejar já me dirigindo ao portão.
Imoral? Muitos dirão que sim. Sempre é mais fácil julgar as atitudes alheias. Esconder embaixo do tapete alguns erros ou esquecer o passado também. Fatos inusitados sempre fizeram parte da vida. Ninguém nasce com a obrigação de tirar tudo de letra. O passado nos moldou. Nem sempre fizemos as escolhas certas. Mas, e daí?  Todo mundo é uma ilha. Posar de santo do dia para a noite não dá direito a ninguém de sair julgando o próximo. Ainda mais por atitudes que desconhecem os verdadeiros motivos. A faculdade da vida ensina algumas coisas, mas alguns não aprendem, ou não querem. É quando o achismo prevalece.
Márcio Renck

Os artigos publicados no site da Rádio Taquara não refletem a opinião da emissora. A divulgação atende ao princípio de valorização do debate público, aberto a todas as correntes de pensamento.
Participe: [email protected]

Leave a Reply