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Publicado em 06/01/2022 14:36 Off

Do “Meu cinicário” – Você acredita, realmente, que homens engravatados fazem alguma coisa em defesa de homens descamisados? Só nas utopias. Mas, lá, não precisa!

 TOTENS

A palavra que dá nome ao texto de hoje não é encontrada a toda hora. Meu contato com ela foi pelas histórias em quadrinhos, com aventuras de faroeste, nos gibis cujas leituras eram seriamente desaconselhadas nas décadas de 1950-60. A proibição tinha a justificativa de evitar má formação intelecto/social dos pequenos leitores atingidos por seus maléficos miasmas. Naquelas historietas, as tribos indígenas – norte-americanas, claro – sempre se reuniam ao redor de totens junto das tendas. É termo de uso raro, embora importante antropologicamente falando. Pronto, já vim com outra palavra pouco usada. Mas, calma! É que a primeira, plural de “totem”, está inserida no objeto de estudos da segunda, a antropologia – agora, usei Ctrl-C, Ctrl-V do meu dicionário Houaiss –, “ciência do homem no sentido mais lato, que engloba origens, evolução, desenvolvimentos físico, material e cultural, fisiologia, psicologia, características raciais, costumes sociais, crenças etc”. Quanto ao totem é, grosso modo, qualquer representação que tenha valor atribuído por um grupo de pessoas e levada a sério na existência desse grupo com poderes até mágicos.

Sempre procuro não seguir doutrinas, crenças, ideias, desejos não comprovados, coisas fantásticas que povoam o nosso dia a dia. Planos fazem parte da vida, porém grande parte deles sucumbe ao crítico-mor de qualquer projeto: o tempo. É tarefa árdua restar incólume, ficando ao largo de tanta criatividade sem sermos arrebatados por essas visões de mundos perfeitos, desfilando à nossa frente. Quase escrevi “corrompidos” em vez de “arrebatados”, mas me contive. Definitivamente, acreditar em algo não significa estar corrompido, exceto pela própria vontade. Feito o preâmbulo, vamos aos totens da minha história.

Costumo guardar textos, trabalhos escolares, desenhos, cartas recebidas, recortes de jornais e revistas, mensagens, cartões, fotografias (quem não?) e pequenos objetos (livros, celulares, máquinas fotográficas etc.). Pela minha idade, já na oitava década, dá para depreender que a maior parte disso está guardada ainda em forma física, ocupando espaço. Hoje, quando tudo pode ser arquivado digitalmente, nós, colecionadores de tais coisas, jamais pensamos em eliminá-las. São como totens individuais, dando sentido mágico à nossa vida. Ao contrário das crenças e doutrinas, tão etéreas, esses totens representam partes sólidas das lembranças. Não conseguiríamos, simplesmente, jogá-las no lixo. Entretanto, é duro aceitar: fatalmente, bem poucas de tais peças sobreviverão muito tempo aos donos. Terão pouca importância para outros que não nós. Basta o crítico-mor agir.             

Na verdade, sejam coletivos ou individuais, o esquecimento é o triste destino dos totens

Por Plínio Dias Zíngano
Professor, de Taquara
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