Traduzir o mundo
Algumas sensações parecem intraduzíveis. Os alemães têm schadenfreude, o sentimento de satisfação ao ver outra pessoa se dar mal. Ingleses passam por momentos de serendipity, quando se procura por algo e encontra-se outra coisa, inesperada, mas talvez até melhor que a primeira. Já os brasileiros sentem saudade, uma lembrança nostálgica e, às vezes, melancólica de algo ou alguém.
Essas são expressões de sentimentos complexos que, dificilmente, podem ser entendidas fora de um contexto cultural. Não basta transpor um termo de um idioma para o outro. A tradução não é literal. Ela tenta explicar a ideia por meio de associações e paráfrases, sem, contudo, definir o conceito com exatidão.
Algo semelhante acontece na mídia. Quando um jornalista faz uma reportagem sobre uma realidade desconhecida, ele traduz essa cultura. É preciso compreender valores e costumes díspares. Apenas após esse processo que se pode explicar certos fenômenos para o público local.
Só que uma tradução pode ser limitadora. Quanto mais complexas e exóticas as ideias, mais complicado é torná-las inteligíveis ao público leigo. E isso não se resume a hábitos de povos distantes. Performances de arte contemporânea, greves de trabalhadores e votações no Congresso são temas igualmente inacessíveis para boa parte da população.
Em tempos de pós-verdades, os indivíduos parecem cada vez mais voltados a si mesmos. Preocupados em reafirmar suas próprias convicções, não se esforçam em compreender as demandas e as intenções de outros grupos. Reduzem a diversidade a estereótipos e preconceitos. Realizam traduções malfeitas, simplórias, dignas de quem tem preguiça de pensar.
Eis a questão. A torre de Babel do século XXI não é apenas da fala, mas do pensamento. Enquanto não nos abrirmos ao inusitado, perderemos a chance de aprender com quem está além de nossa fronteira intelectual.
Cabe ressaltar que, aos olhos de um marroquino ou de um norueguês, nós é que somos os exóticos. Na opinião do gremista, os colorados estão sempre equivocados – e vice-versa. O Céu de cada um tem a forma que o sujeito imaginar. O Inferno, também.
Mesmo quando algum sentimento pareça intraduzível, o esforço para decifrá-lo é necessário. Entender a posição do outro nos ajuda a compreender o mundo – e, por que não, a nós mesmos. Abramos espaço para a alteridade.
Rafael Tourinho Raymundo
Jornalista de Taquara
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