Do meu tuíter @Plinio_Zingano – “Artista de rua”? Parem com essa bobagem. Só fica na “rua” artista que não tem reconhecimento pago. Se tiver, sai da rua.
TRÊS HISTÓRIAS
Anotações para três pequenos contos.
Primeira história – Eduardo consegue, finalmente, reaver um dinheiro emprestado. Seu devedor marca o pagamento no centro da cidade e – incrível – comparece. Quando a grana é entregue, um trombadinha passa correndo e leva tudo. O devedor defende-se: “eu paguei!”. Sobra apenas o valor da passagem de volta para casa. Otimista, Eduardo entra numa lotérica, para apostar numa raspadinha; vai tentar recuperar alguma coisa. Enquanto paga, surgem dois ladrões armados. Novo assalto. Eduardo mantém-se calmo. Fica sem dinheiro, porém um de seus irmãos trabalha num banco ali perto. O mano quebra o galho, entretanto pede-lhe que, antes de voltar para casa, vá a uma padaria comprar pão. Até lhe empresta seu automóvel. Na padaria, outros dois ladrões entram e roubam tudo, inclusive o carro. Agora, quase chorando, Eduardo vê os vagabundos ligarem o motor do carro, mas não saírem do lugar. Um bendito pneu furado dá fim ao azar.
Segunda história – Morreu a vovó de Mariazinha, garota de cinco anos, maluca por chicletes. O velório é daqueles antigos, realizados em casa, com moedas sobre os olhos, como o costume. A menina chateia a mamãe, querendo ir ao bolicho comprar as gomas. Para acalmá-la, mamãe lhe dá duas moedinhas. Mariazinha desconhece o valor do dinheiro, mas, fitando as moedas que estão nos olhos da vovó, constata que são maiores e conclui que, certamente, conseguirá mais chicletes com elas. Por isso, faz a substituição. Quando volta do armazém, com a boca cheia, mamãe desconfia da quantidade, pois não lhe dera tanto dinheiro. Olhando para a vovó, entende tudo e corre zangada atrás de Mariazinha que foge, passando por baixo do caixão apoiado sobre os tradicionais cavaletes. A menina calcula mal e levanta a cabeça antes do tempo, quase derrubando a morta. Pelo resto do velório ficou longe da mãe, no pátio. Quando aparece uma cobra, grita de medo, mas ninguém acredita nela. Já no cemitério, durante a encomendação, mamãe tenta beliscar-lhe o braço, mas, novamente, ela foge. A cerimônia prossegue até ser interrompida por gritos apavorados: “mamãe, me tira daqui!”. Mariazinha está caída, aos berros, dentro da cova reservada para a vovozinha.
Terceira história – Seu Raul morre. Todos ficam muito tristes porque é um membro benquisto na comunidade. Na hora do sepultamento, depois da alocução do padre, os presentes se mantêm em silêncio; os coveiros depositam o caixão na sepultura e se preparam para colocar a campa sobre ela. É então que se ouve um grito lancinante: “ai, ai, meu dedo! para, para!”. O pesado granito caíra sobre o dedo de um coveiro e o respeitoso silêncio se esvai numa constrangida risada.
Gostaram da minha imaginação? Agradeço muito… mas não inventei nada. O Eduardo era irmão do meu cunhado e os assaltos aconteceram em Porto Alegre. A Mariazinha é a Ana Maria, hoje professora, minha colega, e o caso ocorreu em Tucanos com cobra e tudo. Finalmente, seu Raul era pai de um amigo meu, o Mauro; eu estava presente no enterro, na zona sul de Porto Alegre. Apenas transcrevi a realidade, a mais criativa contadora de histórias.


