Haiml & etc.
Esta postagem foi publicada em 27 de julho de 2012 e está arquivada em Haiml & etc..

Um presente dos Deuses!

Um presente dos Deuses!

De vez em quando alguém pergunta quanto recebo pelas minhas colunas, se sou remunerado por escrever ao Panorama; de vez em quando, ao ouvirem a minha resposta, alguns desses que fazem tais perguntas, torcem o nariz ao saberem que “não, não ganho por elas um tostão”. “Mas não dá valor ao teu trabalho?” – retornam.
Dou valor, e muito, e saibam que manter um lugar como o meu não é fácil e há muitos de olho nele, e saber que o Olavo ainda não decidiu me trocar por um monte de grana que ele poderia estar recebendo dos muitos comerciais que caberiam onde é meu espaço mensal, me faz secretamente sorrir. Além disso, cada texto que termino e me agrada já é um grande presente.
Também me basta a enorme quantidade dos que me lêem, dos que elogiam ou mesmo criticam textos e comentários, as palestras e outros eventos que a coluna traz. Ouso dizer, as vidas que talvez eu mude, as ideias que encaminho e que, por sua vez, se tornam em momentos melhores para muitos. E, de vez em quando, uma surpresa inesperada: um texto meu sobre recente filme baseado no escritor Allan Poe, lido em São Paulo, me fez receber de graça uma magnífica edição recém lançada pela Editora Tordesilhas, de contos de tal autor. E, meu amigo, que edição!
Em 1919 uma editora de Londres publicou uma antologia de contos de Edgar Poe, que àquela altura já era reconhecido como o pai das histórias de suspense e mistério. A edição não se limitava a reproduzir as narrativas, mas foi luxuosamente ilustrada pelo irlandês Harry Clarke, um dos precursores do Art Nouveau (o traço dele é de arrepiar – veja no blog museudopoe). É exatamente tal suntuosa edição, em capa dura, 425 páginas, que a Tordesilhas traz agora ao Brasil, e com um precioso acréscimo: o prefácio é de Charles Baudelaire (1821-1867), ícone da poesia francesa que traduziu e divulgou a genialidade de Poe pela Europa.
O lançamento da Tordesilhas  também brindou-me com textos que meu vasto arquivo sobre Poe ainda não tinha: Silêncio – uma fábula” (estranha conversa entre o demônio e o narrador), “Leonizando” – um conto satírico e o “ O colóquio entre Monos e Una”. Nela há, também, o que chamo de a trilogia da passagem pelo túmulo: comece pelo pesadelar “O enterro prematuro” (o narrador  descreve os horrores de ser enterrado vivo), depois vá ao “Os fatos do caso  do senhor Valdemar” (o efeito da hipnose pode continuar mesmo após a morte física?) e então “O colóquio entre Monos e Una” (as almas de dois seres que já haviam estado juntos antes da morte contam suas experiências de pós-morte quando em tal mundo acabam por se reencontrar.

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O ILUSTRADOR
Henry (Harry) Patrick Clarke nasceu em Dublin, Irlanda, em 17 de março de 1889. Adepto do movimento irlandês Arts and Crafts, estudou na Escola de Artes de Dublin e no Colégio de Artes de South Kensington, onde obteria, a partir de 1911, três medalhas de ouro consecutivas por suas criações em vitrais. Em 1914 sua tela “O batismo de São Patrício” foi exposta no Louvre. No mesmo ano lhe encomendaram a execução dos vitrais da capela de Honan, em Cork, Irlanda. Um ano depois passou a atuar como ilustrador de livros. De sua produção gráfica, destaca-se a série de estampas que criou para a antologia Contos de Imaginação e Mistério, de Edgar Allan Poe, às quais se seguiram as criações para obras de William Butler Yeats, Alexander Pope, Hans Christian Andersen, Wolfgang Johann von Goethe, Charles Perrault e Algernon Swuinburne. Reconhecido como um dos precursores do Art Nouveau, Clarke morreu em decorrência da tuberculose no dia 6 de janeiro de 1931, em Coire, Suíça. Vale a pena ou não continuar escrevendo ao Panorama?

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