Haiml & etc.
Esta postagem foi publicada em 5 de abril de 2013 e está arquivada em Haiml & etc..

Uma fascinante exposição

Dia desses, trancado por uma fila enorme no açougue de um supermercado, tive tempo de contemplar as vitrines que tal seção oferece. Então me veio um pensamento que há muito já tinha tido, e que, por causa da demora da espera, teve tempo de se expandir e gerar este texto.
Observei os diversificados tons de vermelho das carnes espalhadas por detrás do vidro do grande balcão frigorífico: pedaços de tamanhos vários de bovinos, suínos e ovinos. Pedaços banhados em temperos ou em seus próprios sangues, enfiados em ganchos. Era uma rica exposição sobre a morte, retalhada, eviscerada, anunciada, institucionalizada.
Uma absurda galeria de artes de entranhas, uma amostra de órgãos, rins, intestinos, fígados, vísceras, corações, coxas, pernas, ossos, gorduras, um cemitério de restos de corpos, e nós ali, sem o menor sentimento de nada, ou melhor, expressando, alguns de forma mais explícita, outros interiorizando a satisfação de que em breve uma porção daquilo seria saboreada por nós.
Escrevo sem nenhuma pretensão vegana ou vegetariana. Meu organismo, manipulado pela ancestral genética, até diminuiu o hábito carnívoro – e escolheu dele as carnes mais úteis, e seus respectivos preparos mais saudáveis – mas evitá-lo de todo, ainda não. Será que, lá do além, os sacrificados nos olham felizes por terem cumprido a missão de voluntariamente tornarem a nossa vidinha uma pouco mais empolgante? Pois um churrasquinho de alface teria a mesma vibração que o tradicional?
E assim como nos tornamos indiferentes/coniventes aos balcões de açougue, assim ficamos a outros aspectos da vida. Olhamos os noticiários televisivos, e quase nada, ou nada mais neles nos afeta. É preciso mais, mais sangue, mais exploração criativa/intensa da mídia em cima da tristeza alheia. Que as novelas fiquem mais absurdas, mais gritantes, mais barulhentas, que os jogos eletrônicos proponham mais o errado do que o certo, e até que “a arte” use da violência sem propósito. Damos maior liberdade ao excesso, não nos basta mais o simples, o básico.
Também estamos indiferentes ao olhar o outro com mais cuidado, e é por isso que o mundo, apesar de todas as maravilhas da tecnologia que surgem para melhorar a nossa vida, da dita “evolução” tecnológica, não está melhor em nada. Aperfeiçoam as máquinas, no entanto, descuidam de cultivar a humanidade nos seres humanos. E adianta corpo sem alma? A quem estamos mesmo dando a devida atenção?
Estamos ficando indiferentes até ao fato de termos ficado indiferentes.

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