Aquele senhor carregava sob o braço apenas uma rosa amarela, enrolada em papel comum. Ao ser abordado na rua por um repórter de televisão, foi questionado sobre o presente que daria à esposa no Dia dos Namorados. Ele mostrou a flor, solitária, entre seus dedos, e disse que o presente maior era o amor dos dois, que resistira a muitas dificuldades, mas que era tudo o que importava na vida.
As lágrimas lhe escorreram pelo rosto ao falar daquela que era desde sempre sua companheira. Lembrou da vida simples, mas honesta, com uma casa em Porto Alegre e outra no litoral, para veraneio. Era o que possuíam de bens materiais e ainda assim ele ressaltou que tinha tudo o que precisava, especialmente o amor pela esposa que duraria eternamente.
Linda declaração de amor em tempos de consumismo imediato, onde o Dia dos Namorados se transformou em mais uma daquelas datas cheias de apelos para compras e vazias de sentido, na essência. Até porque um dia para isso ou para aquilo não tem sentido nenhum. Todo dia é dia para tudo.
Entre declarações de namorados afoitos em explicar na reportagem o que pediram e o que comprariam para seus companheiros, desde o mais simples até o mais sofisticado presente, este senhor carregava com orgulho apenas uma rosa amarela, símbolo que encontrou para declarar sua paixão.
Nada de presentes caros, nada de frases de efeito, nada demais. Apenas o amor sincero, a lágrima ao vivo e uma declaração verdadeira, quase surreal, em contraste com as imagens de shoppings lotados de gente comprando, como se fosse possível, a tal felicidade.
Em nome dela tudo é permitido. Gastam o que não podem, compram o que não querem, namoram quem não interessa, fingem ser o que não são.
Alheio a todos esses apelos, aquele senhor levava uma única flor solitária, mas tão cheia de vida, que talvez nem se deu conta de que a rosa amarela, e não vermelha como poderíamos sugerir para a data, transformava-se naquele momento, no seu próprio amor, disfarçado em pétalas, liquefeito em lágrimas.
Roseli Santos
Jornalista


