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Uma vida sobre rodas

Ninguém pede para nascer em uma cadeira de rodas. Aliás, ninguém nasce. Algumas pessoas acabam tendo que usá-la para se locomover, seja na infância ou com uma idade maior. A cadeira se torna um instrumento essencial, tal qual uma peça íntima de roupa, sem ela, tudo fica mais difícil, para não dizer inviável. Porém, continua sendo um objeto, uma cadeira de rodas não define a pessoa, suas características ou essência. 



Por vezes, a cadeira sabe ser bem inconveniente, não é discreta, não importa onde chegue, todos a percebem. O instinto já leva o ser humano a empurrar ela, imaginar que existe um obstáculo, proteger do “perigo”. 

E quem está em cima da cadeira? Você vai dizer que é um cadeirante, certo?

Aí entra a reflexão deste mês. Será que o “cadeirante” gosta de ser conhecido como o “cadeirante?” Por qual motivo isso se transforma na principal credencial dele?

Você já ouviu: “o cadeirante é muito bom no que faz, admiro ele”. Muitas vezes esse SER HUMANO é do mesmo nível de várias outras pessoas, só que sua habilidade chama mais atenção pela razão de acharem que o seu meio de locomoção o torna limitado. 

O outro lado também se faz presente. Tudo vai indo tão bem, até o assunto da cadeira ou o fato de andar nela entrar na pauta. A desconfiança, a pouca fé e a resistência prevalecem. Nunca é declarado, é sempre nas entrelinhas, nos sorrisos disfarçados, no tapinha nas costas, na frase: “ele é gente boa, mas tem suas limitações, melhor não.” É comum a cadeira ser a barreira de qualquer relação. Seja para juntar ou para afastar. Pelo motivo de quem não necessita de uma, enxergar o outro apenas como o dono dela.

E falando na condição de cadeirante, esse é o único problema da cadeira. De verdade. Óbvio que não é bom andar em cima de uma cadeira de rodas, por vezes pedir alguma ajuda de acesso. Seria muito melhor caminhar, correr. Mas, por algum motivo que a fé ou a ciência talvez um dia expliquem, não dá, não é possível e está tudo bem. 

O que não tem solução, solucionado está. A vida é assim, uma caixinha de adaptações, cada dia tem suas circunstâncias, seus contextos, é preciso ter flexibilidade em tudo, a cadeira é mais um elemento disso. É legal demais receber carinho, ajuda, quando ela vem pela pessoa que você é, não pela sua condição.

Por mais que muitas vezes a intenção seja a melhor possível, dá uma angústia estar todo o segundo em algum lugar que não é da sua rotina ou por vezes até que seja, com vozes e olhares atentos, sempre perguntando se você precisa ajuda, se quer alguma coisa, muitas vezes querendo fazer pela pessoa o que ela tem plena capacidade de realizar.

Resumidamente, a cadeira vira algo ruim pelo motivo das pessoas nunca esquecerem que o determinado indivíduo está em uma. E o pior disso, é que se trata de uma memória seletiva, na hora de construir rampas, portas largas e calçadas adequadas, o esquecimento tão pedido, aparece! Quando não deveria.

Felizmente não são todos. E a gente sempre sabe quem é de verdade, quem não tá nem aí para a cadeira e ao mesmo está muito junto de quem é dono dela.

O fundamental é a compreensão de que tudo está interligado. Falo de cadeirantes por conhecimento próprio, embora possa valer para todas as demais necessidades físicas.

Pedimos oportunidades iguais, fiscalização de leis, acesso em todos os eventos e locais possíveis, só que tudo isso é perfumaria. Não queremos ser um grupo de cadeirantes ou de outras necessidades específicas. Nosso desejo é estar junto com todos, ser do mesmo time, vistos da mesma forma, compensados e cobrados igualmente.

“Cadeirante” não é cadeirante, é criança, adolescente, homem, mulher, pai, mãe, filho (a), com deveres, direitos, missões e propósitos nesse mundo. 

A cadeira é meio de transporte, não obstáculo.

A vida é a mesma para todos. E nela queremos viver.

Por Cassiano Gottlieb, de Taquara
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