Caixa Postal 59
Esta postagem foi publicada em 14 de janeiro de 2011 e está arquivada em Caixa Postal 59.

Vamos comprar o Ronaldinho?

Nesta recente virada de ano, acompanhando o sonho de milhões de brasileiros, fiz algo que não é de meu costume: joguei na “Mega Sena da Virada”.
Evidentemente que, como todo “bom jogador”, bem antes de saber o resultado, já havia feito meus projetos de como gastaria a “bolada”. E acreditem ou não, entre meus “planos secretos”, estava a compra do Ronaldinho Gaúcho, que seria, imediatamente, cedido ao “Padilhano Futebol Clube” de Padilha.  Até então, ainda estava com algumas dúvidas quanto à aceitação por parte dos dirigentes do Padilhano. Entretanto, talvez por sorte do clube e azar meu, errei todos os números e, com isso, não precisei mais preocupar-me com a transação.
Mas, deixando esse sonho maluco de lado e voltando à dura realidade, confesso que ainda não consegui parar de pensar na negociação milionária envolvendo este jogador. Fico “embasbacado”, imaginando o que passa pela cabeça dos torcedores e dirigentes de um clube para querer gastar uma verdadeira fortuna com esse sujeito.
Não é nenhum segredo que a imensa maioria do nosso povo, incluindo os gremistas e colorados, ganha uma média de um a três salários mínimos mensais e, apesar disso, aceitam e até vibram em fazer um esforço gigantesco  para comprar um jogador e pagar, por sua atuação, a bagatela de R$ 1.300.000,00 (um milhão e trezentos mil reais),  equivalente a mais de 2.400 salários mínimos mensais. Ou seja, o Zé, torcedor do Grêmio, que deixa de comer para ver seu time jogar, precisaria trabalhar 200 (duzentos) anos, economizando todo seu salário, para pagar um mês de salário do Ronaldinho.
Dá para entender?
Não sei se meu amor pelo Grêmio não é grande o suficiente, mas confesso que não consigo ver uma lógica razoável para uma valorização de tal porte por um jogador de futebol, seja ele o Ronaldinho, ou qualquer outro. Quem, afinal, começou a determinar esses valores tão absurdos?
Tempos atrás, escrevi uma crônica onde citava os ganhos abusivos de nossos políticos e banqueiros. Vejo que me esqueci de incluir  jogadores de futebol famosos.
Mas, falando em futebol, outra coisa que me assusta é ver o nível de fanatismo de alguns torcedores. E não me refiro à violência das tais torcidas organizadas. O que me espanta é ver alguém se benzendo e orando pela vitória do seu time. Pior ainda quando, em agradecimento a Deus, dão a volta olímpica no estádio de “joelhos”. Imagino o que Deus deve ficar pensando a respeito…
Mas, tudo isso não seria problema, se as demais profissões também fossem valorizadas de forma semelhante. Como seria bom, por exemplo, saber que uma professora, pela sua atuação, estivesse sendo disputada por escolas, dispostas a pagar altos salários para tê-la em seus quadros! Ou um simples gari que, por sua dedicação e rendimento, fosse valorizado monetariamente e convocado para varrer ruas de outras cidades.
Insisto em dizer que não sei o que é mais importante, uma alegria efêmera e momentânea, ou o incentivo a um futuro melhor para todos. Uma certeza, porém, fica bem visível: quanto mais fútil a profissão, maiores são os ganhos. Basta, para isso, questionar nossa “gurizada” atual e, independente de salário, vejam quantos sonham em ser “Ronaldinhos” e quantos querem ser “professores” ou ter uma outra atividade qualquer.
Mesmo assim, não pensem que desisti do Ronaldinho: se alguém tiver interesse em colaborar, posso dar minha conta bancária para doações.
Não podemos perder essa verdadeira “pechincha”.
Dagoberto Velho
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