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Esta postagem foi publicada em 15 de janeiro de 2021 e está arquivada em Penso, logo insisto.

Vanitas Vanitatum, por Plínio Dias Zíngano

Do “Meu cinicário” – “É de pequenino que se torce o pepino”. Mas, antes de torcer, entenda bem: será para o bem ou para o mal! Depois, a vida dirá.

VANITAS VANITATUM

            Pois inicio meu texto, citando um dos pensamentos mais profundos da Bíblia, mesmo sem ser um leitor fervoroso d’O Livro. São palavras do Eclesiastes (1:1-2) e a citação completa, em latim, é vanitas vanitatum, omnia vanitas. O latim entrou no livro porque, na começo de sua apresentação de forma organizada, esse era o idioma oficial do mundo cristão. E foi dentro desse critério que muitas outras expressões se tornaram parte do conhecimento cultural. A tradução portuguesa da frase é “vaidade das vaidades, tudo é vaidade”. Mas não pretendo dar um curso bíblico. Falta-me qualidade espiritual para este intento. No entanto, aproveito a sabedoria originada em Salomão, fazendo um pequeno ato de confissão (o confiteor – olhem só, de novo o latim) e isso, sim, nada tem de religioso. É, praticamente, um exame de consciência.

            Vamos aos fatos! Existe uma empresa norte-americana, a Academia.edu, cujo propósito é fazer o controle da produção intelectual acadêmica de quem se utiliza de seus serviços. Segundo seus anúncios, ela tem acesso a alguns milhões de textos científicos (dissertações, teses, artigos) escritos por quem trabalha, principalmente, em universidades ou institutos de pesquisas. A ideia é boa, uma vez que uma das pedras fundamentais das pesquisas é a referência de algum escrito já aprovado, publicamente, por uma equipe mais qualificada de profissionais. São as famosas “bancas”, um dos terrores de quem está no ensino superior.

            Comecei a receber no meu emeio, convites para associar-me à Academia. Ignorei os primeiros convites. De alguma forma eu estava cadastrado lá por ter, um dia, apresentado uma dissertação de Mestrado numa universidade e, mesmo desgostando muito da minha classificação, recebera o título. Mas, publicidade é uma atividade vencedora pela insistência. Aos poucos as mensagens começaram a reportar citações em trabalhos científicos marcadas pelo nome P. Zíngano. Isso despertou minha vaidade (a vanitas). Pensei: será que alguém notou a qualidade do meu texto e o está usando como apoio ao seu projeto? Quando chegaram a mais de 30 citações ao longo do ano passado, a curiosidade venceu e associei-me ao serviço. A vaidade de ser aceito por outros acadêmicos obliterou todas as minhas reservas anteriores. Era uma forma de reconhecimento e isso não tem preço. Porém, neste caso, teve e por um ano vou continuar vendo que o P. Zíngano mencionado nos textos não sou eu. Ignoro quem seja.

            Salomão tinha razão: tudo não passou de vaidade!

Por Plínio Dias Zíngano
Professor, de Taquara
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