Paralelas
Esta postagem foi publicada em 25 de outubro de 2013 e está arquivada em Paralelas.

Vaso trincado

IngeFiquei ligada! Penso que muitas outras pessoas também. Na novela Global do horário nobre, nesta semana, os atores Ary Fontoura e Nathália Timberg receberam do autor Walcyr Carrasco a desafiadora incumbência de exporem o amor e a sexualidade na idade avançada.
Primeiro: vejo novela, sim. Às vezes só escuto o diálogo, enquanto me envolvo em outra atividade, mas na cena de amor destes dois atores, não consegui desgrudar os olhos da televisão. Todos sabemos que o amor existe para esta faixa etária, mas temos curiosidade em imaginar como as pessoas superam suas inseguranças para viver uma paixão aos 70 anos ou mais, por exemplo.
Muita gente, aos 20 ou 30 anos, se impõe reservas porque acha que não tem um corpo dentro dos padrões midiáticos, e que o(a) parceiro(a) não irá apreciar a intimidade. Isto prova que a arte de aproveitar os prazeres da vida precisa ser conquistada, cultivada mesmo com cuidado, independente da faixa etária. O que precisa ser derrubado são os tabus, o medo de ser ridículo, muito mais do que os quilos a mais, os seios flácidos, a barriga proeminente, a calvície, a celulite, enfim, as rugas e babados que não escolhem sexo.
Mas, na linha das relações afetivas, acho especialmente intrigante, por outro lado, um fenômeno que ocorre com casais que sofrem alguma mudança importante na vida, quer seja a doença de um dos cônjuges, de um dos filhos, uma traição, uma queda de padrão financeiro. Já observei vários casos em que alguma destas situações leva a uma ruptura difícil de ser costurada de forma a que a relação volte a ficar confortável e prazerosa.
Um tempo atrás ouvi o relato de uma mulher que teve um filho com síndrome de Down, e que foi abandonada pelo marido incapaz de lidar com a situação. A partir do diagnóstico da criança, os ânimos entre eles, especialmente o sexo, se tornou impraticável. Ocorreram acusações mútuas, o “vaso trincou”, e mesmo que ainda comportasse água, nenhum deles mais quis depositar flores. Anos depois, com a situação do filho especial equilibrada, a mulher construiu uma nova relação com outra pessoa. Difícil? Mas possível! Assim como teria sido possível ao casal original manter a relação, se não tivessse deixado o “vaso trincar”, assim como tantos outros casais mostram ser viável, deixando que o amor (não a paixão) indique o caminho para a tolerância, a cumplicidade e a colaboração mútuas, que aproximam ao invés de afastar.

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