Precisava recusar o convite de Armando porque não tinha o que vestir, que ficasse adequado para aquela recepção elegante. Declinar custava-me muito, pois sempre esperara uma oportunidade de aproximar-me do aluno mais brilhante da nossa turma de Direito. Não, decididamente ele não era um daqueles gênios introspectivos, de grossas lentes e espinhas no rosto. Armando tinha uma aparência agradável, mas seus principais trunfos eram a inteligência e uma grande capacidade de comunicação.
Por muito tempo, ele parecia nem perceber minha existência, no meio de tantas abordagens solícitas – loiras, morenas, ruivas, de todos os manequins e cursos da Faculdade, gravitavam ao seu redor. Não tinha namorada que se conhecesse, saía com uma e outra garota, mas nada parecia evoluir para algo mais sério.
Consegui descobrir, por seu amigo mais próximo, que Armando tinha planos bem traçados: se formaria em um ano e continuaria os estudos no exterior.
– Armando, soube que você pretende um MBA fora do País. Também tenho planos neste sentido, mas nem sei por onde começar. Você pode me dar alguma dica?
Na evolução da conversa, lancei mão de todas as observações inteligentes de que meu melhor planejamento foi capaz. Armando confirmou sua vocação para a popularidade e me repassou todas as informações de que dispunha.
– Vou estudar nos Estados Unidos. Você tem preferência por algum país? – perguntou ele.
Para disfarçar qualquer interesse pessoal, respondi que tinha simpatia pela Inglaterra, mas que não estava definida ainda.
Dois dias depois, não havia pensado ainda num segundo ato para minha aproximação com Armando, quando nos encontramos no bar da faculdade, e ele perguntou sobre a evolução dos meus planos.
– Andei envolvida com os trabalhos de aula, nem fui atrás de suas dicas ainda. Talvez possa encontrar tempo na semana que vem – inventei. Foi então que Armando me surpreendeu com um convite para acompanhá-lo a um coquetel. Seria uma reunião social promovida pelo escritório de advocacia do pai dele; em três dias, um evento reunindo funcionários, clientes e até algumas autoridades.
Três dias era pouco tempo para que eu encontrasse uma solução mágica: vestir o que numa festa deste tipo? Fiquei sem graça de admitir minha péssima situação financeira, e a especial singeleza do meu guardaroupas. Se confessasse, teria dificuldade em sustentar a história dos meus planos de estudar no exterior.
Não queria, em absoluto, simplesmente declinar do convite, denunciando pouco interesse na companhia de Armando. Optei por alegar um impedimento importante no último instante, para me eximir de culpa.
Na noite em que Armando viria me apanhar para o tal coquetel, vesti meu vestido preto (o tal basiquinho que toda mulher deve ter), coloquei mínima maquiagem e fiz um cabelo preso. Queria parecer bonita diante dele, mas precisava estar convincente de que meu destino seria o velório do pai de uma grande amiga, que havia falecido repentinamente. Por sorte, eu não tinha ainda o número do celular de Armando (não queria demonstrar interesse) e tudo contribuiu para que eu pudesse alegar o imprevisto para não acompanhá-lo.
Quando, à sua chegada, abri a porta para Armando, estava com meu texto decorado. Mas, antes que eu dissesse qualquer coisa:
– Olá, Fernanda, que alívio encontrar, enfim, uma garota que sabe se vestir para um coquetel de negócios. Podemos ir?
Esta postagem foi publicada em 26 de abril de 2013 e está arquivada em Paralelas.


