Essa história de mapeamento genético me causou um certo desconforto, quase um temor, um arrepio na alma, depois que a atriz e celebridade Angelina Jolie anunciou a retirada dos seios por medo de ser acometida por câncer de mama. Tudo isso foi apontado como “probabilidade” com o tal do exame de DNA que indicou o percentual, no caso dela altíssimo, de ter a doença, geneticamente já manifestada em parentes próximos, como a própria mãe.
Aplaudo os avanços da medicina que nos permitem viver mais e com melhor qualidade de vida; concordo e defendo a prevenção e exames de rotina como maneira de anteciparmos ou curarmos possíveis doenças; acredito na prática de esportes e na alimentação saudável como forma de mantermos a saúde; e aposto que as novas tecnologias nos surpreenderão ainda mais daqui pra frente.
Mesmo assim, persiste em mim o arrepio diante da antecipação do que ainda nem existe, nem se manifestou e talvez nunca venha a se manifestar. A maioria dos nossos temores não se concretiza, os pensamentos criam fantasmas que jamais surgirão e tenho certeza de que quase tudo o imaginamos de ruím, não acontecerá. Não ao menos da maneira como supomos. A vida pode nos surpreender desagradavelmente em qualquer esquina, claro, embora não seja necessário ficarmos de prontidão 24 horas esperando o pior.
O caso de Angelina Jolie, e de outras pessoas que tomaram atitudes semelhantes, sem nem terem adoecido, me causou esse desconforto na alma por medo, também, de estarmos querendo brincar de Deus, assim como alguns médicos, advogados, jornalistas, administradores e profissionais de outras áreas que acreditam ter o rumo e o controle de tudo em suas mãos. Não pretendo discutir questões de bioética e nem valores pessoais. O que me sacudiu foi o alerta que tentamos ignorar, disfarçadamente, de que a Dona Morte está ali, de qualquer maneira.
Um dia, certamente, ela nos encontrará, por mais que tenhamos nos precavido e adiado este momento. Já vi pessoas diabéticas, cardíacas, com câncer e sei lá mais o quê, acordarem um belo dia pela manhã, cruzarem a rua e morrerem atropeladas por um ônibus. O imprevisível sempre nos ronda, por mais que tentamos mapeá-lo, rastreá-lo, evitá-lo.
Já pensaram em um exame genético que indicasse a probabilidade altíssima de um câncer no cérebro? Como retirá-lo se precisamos deste órgão fundamental para existirmos, com ou sem medo da doença? Não há transplante e nem silicone que resolva este impasse, ao menos por enquanto. Assim como ainda não há a cura para o câncer, o quê, sinceramente, eu questiono todos os dias, diante de tantas descobertas mirabolantes e fantásticas que o ser humano é capaz.
O desconforto me desperta e até me ajuda a buscar outros caminhos para a vida, esta sim, cheia de possibilidades reais, todos os dias, batendo à nossa porta. Deixemos as preocupações concretas e graves para quando elas ocorrerem, de fato. E elas virão, podem ter certeza, mais dia menos, dia. Enquanto isso, respiremos a existência plena de estarmos aqui e agora, saudáveis, atentos aos alertas do corpo e da mente, mas sem medo de ser feliz, antes que sejamos atropelados pelos pesadelos que nos invadem. Um dia de cada vez e a vida fluirá naturalmente, sem amputações desnecessárias.
Esta postagem foi publicada em 31 de maio de 2013 e está arquivada em Paralelas.


