
O céu azul contrasta com o rosto preservado das vítimas. Elas carregam dor, marcas, traumas vencidos e um histórico de luta. Tudo foi compartilhado com exclusividade com a Rádio Taquara. Mulheres, agredidas fisicamente e emocionalmente pelos ex-companheiros, por anos, trouxeram detalhes de suas trajetórias à equipe de reportagem.
O encontro ocorreu no Centro de Referência de Atendimento à Mulher (CRM) em Taquara. A instituição faz parte da rede de apoio e proteção às vítimas. Na instituição, elas são orientadas sobre seus direitos, acompanhadas em momentos importantes e delicados, como o momento da denúncia e recebem assistência multiprofissional, com acompanhamento psicológico, jurídico e social.
Com a presença e assistência da coordenadora do CRM, a primeira mulher, de 38 anos, relatou o histórico de agressões. Por 15 anos ela viveu com o marido, sendo agredida e privada de recursos financeiros. “Desde o início, sempre foi um inferno. Ele não me respeitava“, relata.
Segundo ela, durante o namoro, não existiam agressões. No casamento, depois de dois filhos, a violência física e patrimonial surgiu. A mulher foi alvo de chutes, socos, tapas, puxões de cabelo e sessões de enforcamento. A esperança de que o companheiro cessaria os crimes era ilusória. “Cada vez se tornava pior. Acaba que nunca muda. Cada vez agrava mais“, explica.
Com dois filhos para sustentar e em uma sociedade com o companheiro, a vítima tinha o sustento da família constantemente ameaçado. O agressor criou a dependência financeira da esposa para prendê-la no relacionamento. “Chegou um momento que eu não podia nem receber minha família [em casa]“.
A perseguição aconteceu, também, por parte da família do marido. Segundo a vítima, os sogros sabiam das agressões, mas eram cúmplices dos crimes cometidos. O agressor tratava os filhos, menores de idade, com estupidez e chantagem emocional.
O esgotamento mental e o pedido de ajuda dos filhos levou a mulher à Defensoria Pública de Taquara e, depois, à Polícia Civil. “As crianças disseram: ‘Separa do pai, mãe. Não dá mais’“, relata a vítima. Hoje, ela recebe acompanhamento no Centro de Referência da Mulher e possui uma medida protetiva contra o ex-companheiro.
No caso dela, a própria rede de apoio encaminhou o caso ao CRM. Mas essa procura pode ser espontânea. Segundo a coordenadora da instituição, que também terá sua identidade preservada, os agressores fazem uma chantagem emocional, com o intuito de impedir a denúncia.
A responsável explica que a ameaça de não ser ouvida ou de perder os filhos são exemplos de narrativas usadas pelos criminosos. Por causa disso, as vítimas já chegam ao CRM em uma condição bem delicada. “O psicológico delas vem muito abalado“, comenta a técnica.
Uma segunda vítima, de 36 anos, também aceitou conversar com a Rádio Taquara. Segundo ela, a motivação de compartilhar sua história é “alertar as meninas e mulheres” sobre os sinais que precedem a violência doméstica.
Neste caso, a mulher viveu em cárcere privado durante 12 anos. O companheiro andava armado dentro de casa e cerceava sua liberdade. Ela não podia sair, trabalhar e nem receber visitas. Vivia com o constante medo de ser assassinada.

Quando mencionava a separação, as ameaças tornavam-se perigo iminente. “Um dia eu falei pra ele: ‘Vamos nos separar? Não tá dando mais…’ ele [disse]: ‘Espera aí um pouquinho!’ e deu um tiro do meu lado“, relata.
Além de não conseguir sair, o companheiro fechava as janelas para impedir que a vítima olhasse para a rua. A documentação dela também foi retida pela agressor. “Eu achava que só iria conseguir me livrar dele quando ele morresse ou quando ele me matasse“, comenta a vítima.
A mulher enfrenta até hoje os traumas gerados por anos em cárcere. O agressor está foragido da Justiça por ter quebrado a medida protetiva. A mulher procurou o Centro de Assistência Social de Taquara (CRAS) e foi encaminhada ao CRM. Desde então, recebe acompanhamento psicológico, jurídico e social.
Em Taquara, somente no primeiro semestre de 2025, a Polícia Civil realizou 14 prisões de agressores por descumprimento de medidas protetivas. O que reforça o estigma da denúncia é o chamado “ciclo da violência”, no qual as agressões evoluem, mas a vítima espera sempre uma melhora do companheiro.

O delegado de polícia Valeriano Garcia Neto explica que os agressores não possuem um perfil definido. Infelizmente, diversas classes sociais e econômicas abrigam potenciais agressores de diferentes níveis. “O agressor faz surgir na vítima um sentimento de culpa por não atender as expectativas [dele]“, explica.
Para a autoridade, a escalada nas agressões é regra, e não exceção. O que começa com a privação de sair ou de usar determinadas roupas pode terminar em um feminicídio. Segundo ele, o agressor sempre vai aumentar as investidas em uma ideia de “dominação”.
Até mesmo a exigência das senhas de celulares pode configurar uma violência doméstica, pois invade a privacidade da companheira. “Em um relacionamento é indispensável a confiança“, justifica o delegado.
As mulheres são protegidas pela lei 11.340/2006, conhecida como Lei Maria da Penha. Ela protege a vítima de diferentes tipos de violência como psicológica, física, sexual e patrimonial. Apesar disso, essas não são as únicas formas: muitas vezes o agressor age contra filhos e a família como um todo, configurando a violência familiar. “É um pouco mais ampla e atinge, também, sogro, sogra, filhos e até vizinhos, quando são familiares. A Lei Maria da Penha diz respeito somente à companheira”, explica o delegado.
Segundo pesquisa do Datafolha, mais de 37% das brasileiras sofreram algum tipo de violência em 2024. Conforme o levantamento, 91,8% das agressões foram feitas na frente de terceiros. Os números chamam a atenção para a necessidade da denúncia.
Em Taquara, as vítimas ou familiares podem procurar o Centro de Referência de Atendimento à Mulher (CRM), onde receberão acolhimento técnico e multiprofissional. Além disso, o boletim de ocorrência e o pedido de medida protetiva deve ser feito na Delegacia de Pronto Atendimento de Taquara, com plantão 24 horas por dia.
O CRM, localizado na Rua Ernesto Alves, 2785, possui atendimento gratuito de segunda a quinta-feira, das 08h às 12h e das 13h às 17h30 e às sextas-feiras das 07h30 às 13h30 (sem fechar ao meio-dia).

Detalhes sobre a vida pessoal das vítimas e do seu convívio com o agressor foram retidos para preservar a identidade e garantir a segurança das mulheres.


