
Celebrado anualmente, com o objetivo de compartilhar informações e promover a conscientização sobre o câncer de mama, o Outubro Rosa também é um período do ano em que os municípios proporcionam maior acesso aos serviços de diagnóstico e de tratamento contra a doença. Em entrevista à Rádio Taquara, três mulheres do Vale do Paranhana relataram suas histórias de sobrevivência e fazem um alerta sobre a importância do diagnóstico precoce para o enfrentamento da doença.
Ao contrário do que é recomendado pelos médicos, de que toda mulher com 40 anos de idade ou mais deve procurar um posto de saúde para realizar o exame clínico das mamas anualmente, a professora universitária Edna Jeremias Martins, de Taquara, descobriu a doença aos 27 anos, fazendo o autoexame.
“Em 2011, eu apalpei um nódulo na mama. Marquei consulta com a minha ginecologista, que solicitou ecografia mamária e mamografia. Na mamografia não apareceu nada, pois a mama jovem é muito densa, o que dificulta a identificação. Então, na ecografia mamária foi identificado um nódulo, com 2,4cm e outro de 1,1cm, o que foi classificado com BI-RADS 4, ou seja, suspeito de câncer.
Naquele momento me desesperei e pedi para fazer a biópsia, pois assim eu ficaria mais tranquila. Em todos os momentos, os médicos procuraram me tranquilizar, pois era pouco provável, visto que eu não tinha histórico de câncer na família e não apresentava nenhum fator de risco (como uso de tabaco e álcool). Para minha surpresa, o exame identificou câncer de mama”, relata Edna.


– Qual foi sua primeira reação ao ouvir do médico que seu nódulo era maligno?
“Me senti sem chão. Passou um filme na minha cabeça (Por que eu? O que fiz de errado). Lembro que pensei em três coisas. A primeira é que, para mim, câncer era sinônimo de morte. A segunda, que eu perderia meu cabelo e isso eu temia muito. A terceira e última, pensei que não poderia ter uma família (filhos). Na época eu era casada fazia um ano e meio. Eu pensei que o câncer interromperia meu planejamento de vida e acabaria com todos os meus sonhos”.
– Como foi o seu tratamento e quanto tempo de duração ele teve?
“Eu coloquei um cateter totalmente implantado para iniciar a quimioterapia neoadjuvante, ou seja, fiz a quimioterapia antes da cirurgia (com intervalo de 21 dias entre elas).
Depois de seis sessões de quimioterapia, eu fiz mastectomia bilateral (retirada das duas mamas). Coloquei um expansor nas mamas e ainda fiquei fazendo um tratamento (trastuzumab), que é um anticorpo monoclonal por mais um ano, via cateter.
Depois disso, em 2012, fiz a substituição do expansor pela prótese definitiva de silicone e retirei o cateter. Hoje em dia sobram apenas cicatrizes”.
– Qual foi a parte mais difícil de enfrentar no seu tratamento?
“Depois que iniciei o tratamento, eu percebi que perder o cabelo foi a parte mais fácil de tudo. As quimioterapias foram a parte mais difícil desta jornada. Após uns três a quatro dias da quimioterapia, eu tinha muitos sintomas, como mal estar, náusea, dores, entre outros. Mas em nenhum momento eu deixei de trabalhar e fazer o que eu fazia, na época eu tinha iniciado o mestrado. Eu faltava algumas aulas, devido ao tratamento, mas em nenhum momento deixei de fazer o que gostava.
Eu acredito que o apoio da família e amigos, foi a parte mais importante. Meu marido raspou o cabelo, ficamos carecas juntos. Além dele, meus primos, minha mãe… Todas estas demonstrações de carinho era como se me falassem ‘Estamos contigo, Edna’. Isso me deu mais forças ainda para encarar o tratamento.
Hoje em dia eu tenho duas filhas e vejo que superei tudo que mais temia”.
– Atualmente, como é a sua rotina de exames preventivos?
“Após o tratamento, a periodicidade era diferente (a cada seis meses). Agora faço exames anualmente”.
– Em sua opinião, a partir de qual idade a mulher deve começar a realizar exames de prevenção ao câncer de mama?
“Sabemos que quanto antes detectado o câncer, a chance de cura é maior. Por outro lado, sabemos que se todas as mulheres fizessem o exame tão precocemente (exemplo, com 18 anos), o sistema de saúde iria entrar em colapso.
Diante das mudanças das nossas rotinas, como aumento de estresse e ansiedade, uso demasiado de eletrônicos, baixa exercícios físicos e o aumento do consumo de alimentos industrializados, acredito que seria interessante iniciar o rastreamento por volta de 30 anos de idade”.
– Que conselho você daria para as mulheres que não costumam dar muita atenção para esse tipo de exames?
“Em primeiro lugar, é importante a mulher conhecer o seu corpo para conseguir identificar qualquer anormalidade. Além disso, quando tiver algum sintoma que persista, que não fique se automedicando, que consulte e veja se é normal.
Cuide da sua saúde, pois você é o amor de alguém e precisa ter saúde para cuidar de quem amamos! Vejo a minha mãe, meu pai e hoje em dia eu penso: ‘Ainda bem que aconteceu comigo e não com eles”!
Hoje quando olho para trás, para tudo que passei, eu me sinto uma pessoa privilegiada em ter condições para enfrentar todo este tratamento. Condições psicológicas, apoio familiar, plano de saúde… Quantas pessoas não tem a mesma sorte? Sou grata por ter passado por tudo. Acho que me tornei uma pessoa melhor!”
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Não bastasse o fato de estar longe da família, vivendo em Portugal, a advogada Carolina Beck ainda precisou enfrentar quatro meses de isolamento da pandemia do coronavírus, antes de ter confirmado o diagnóstico de câncer de mama.
Carolina conta que, aos 17 anos, já havia retirado um nódulo benigno da mama direita e, desde então, sempre fazia os exames preventivos regularmente. Em março de 2020, após sentir um novo nódulo, enquanto realiza o autoexame no banho, marcou uma consulta no médico, que a examinou e disse que, pela característica do toque, não havia com o que se preocupar. Mas, mesmo assim, pediu que ela marcasse uma mamografia.
“Ainda que em um hospital privado, a data mais próxima para os exames era quase 30 dias após, mas como o médico não pediu urgência, eu decidi aguardar. Contudo, lamentavelmente, não pude comparecer, pois logo após minha consulta entramos em isolamento devido a pandemia.
Portugal ‘fechou’. Não havia hipótese de sair de casa, exceto por motivos urgentes. Foi um isolamento muito diferente daquele vivenciado no nosso País. Os meus exames, por não serem considerados urgentes, foram desmarcados.
Em julho de 2020, quando pude voltar ao hospital, fiz primeiro a ecografia e logo após a mamografia. E foi na mamografia que a médica identificou a anomalia. Já marcou uma biópsia para o outro dia e o resultado saiu uns dias depois”, conta Caroline.




– Quantos anos você tinha quando descobriu o câncer de mama?
“Fui diagnosticada com o câncer de mama aos 44 anos”.
– Você tem histórico de câncer de mama na família?
“Tive uma avó e uma tia paterna diagnosticadas com o câncer de mama. Entretanto, fiz um estudo genético (até mesmo pelo fato de que tenho uma filha, e a preocupação de mãe logo falou mais alto), mas não houve a conclusão de que o meu caso tenha sido genético”.
– O que foi mais difícil pra você, descobrir a doença em um país diferente e longe da família, ou não ter realizado os exames de rotina mais cedo?
Eu sempre fiz os exames de prevenção. A minha ultima mamografia tinha sido no ano anterior, tudo conforme ‘manda o figurino’. Sinceramente, o mais difícil foi receber o diagnostico sozinha e depois ter de contar que estava com câncer para a minha mãe. Estávamos com um oceano de distância entre nós duas e não havia a menor hipótese de minha mãe vir para Portugal (pandemia). Depois cogitamos a hipótese de eu voltar e tratar no Brasil, ficar perto da família e amigos. Mas teria sido loucura, especialmente, pela época em que aconteceu, em meio a pandemia”.
– Como foi o seu tratamento e quanto tempo de duração ele teve?
“O tratamento começou em agosto de 2020. Eram sessões semanais de quimioterapia. Em janeiro de 2021 eu fiz a última sessão de quimio, e continuei com outros tratamentos menos agressivos até agosto de 2021, esses quinzenalmente.
Atualmente, faço um tratamento menos complicado, preciso apenas, uma vez por mês, fazer uma medicação injetável no hospital. Além disso, diariamente, tomo um medicamento.
O tratamento ainda deve demorar uns bons anos para terminar, contudo a fase mais complicada já passou”.
– Qual foi a parte mais difícil de enfrentar no seu tratamento?
“A parte mais difícil de enfrentar… São tantas! É como uma receita de bolo, não tem como dizer qual é o ingrediente mais importante. Mas o diagnóstico, em meio a pandemia, foi complicado. Até hoje eu não vi o rosto da minha médica, nem das minhas enfermeiras… Sempre escondidos por uma máscara.
Têm as questões emocionais, a ansiedade sobre o tratamento; como vai ser? Será que eu vou dar conta? Os dias de fraqueza extrema, os dias em que os sintomas do tratamento são mais ‘intensos’ e te derrubam. Comer sem ter fome nem sentir sabor… Decidir sobre a mastectomia… O medo de aparecerem as metástases…”
– Atualmente, como é a sua rotina de exames preventivos?
“Passado aquele período de sessões de quimioterapia, a rotina de exames é a parte mais ‘chata’. São muitos exames que preciso fazer com frequência. A cada dois ou três meses, preciso repetir exames de sangue, ecografia cardíaca e TAC.
A cada seis meses, preciso fazer outros exames, e isso nunca termina (afff, cansa). Inclusive, estou repetindo a mamografia, ecografia mamária (a minha mastectomia foi unilateral) e os exames do colo do útero”.
– Como é a saúde pública em Portugal, em relação aos exames preventivos e tratamentos contra o câncer de mama?
“Os portugueses reclamam muito da saúde que têm, mas se conhecessem a nossa realidade brasileira, ficariam apavorados (ou agradecidos). Aqui, as mulheres com mais de 50 anos são chamadas pelo Sistema Nacional de Saúde (SNS), para fazer os exames preventivos, o ‘rastreio’.
São políticas públicas, até onde sei, que também existem no Brasil, porém, em Portugal elas são eficazes. Por exemplo, dentre as minhas ‘companheiras’ de tratamento, duas haviam sido pegas no ‘rastreio’.
Diferente do Brasil, Portugal possui os chamados ‘médicos de família’, uma especialidade médica (medicina geral familiar). Ou seja, cada cidadão tem o seu médico de família (por exemplo, eu estou cadastrada em um centro de saúde do meu bairro). Esse médico atende o seu paciente e, se for o caso, encaminha para um especialista.
Vejo que, atualmente, o maior problema público enfrentado por Portugal está na escassez de médicos (atualmente, há cerca de dois milhões de portugueses sem ter um médico atribuído, devido a escassez de médicos) e as más condições de alguns centros de saúde (por má administração).
No geral, eu não tenho nada para reclamar. Fui diagnosticada em um hospital privado, e encaminhada para um hospital público, onde fui tratada exatamente pela mesma equipe. Entre o diagnóstico e o início do tratamento, não passaram mais do que 30 dias.
Nunca me faltou absolutamente nada. Mesmo em meio a pandemia, nunca faltou medicamento, sempre organizado, fui atendida no Hospital em Guimarães, por uma equipe que levarei para sempre no meu coração.
Atualmente, faço o tratamento em Lisboa, em um hospital maior, e esse ‘mimo’ que eu recebia em Guimarães já não há, em Lisboa somos mais um, o que justifica-se pela demanda de um hospital gigante sem equipe suficiente”.
– Que conselho você daria para as mulheres que não costumam dar muita atenção para esse tipo de exames?
“Não custa nada, absolutamente nada dar uma ‘apalpadinha’ de vez em quando. São menos de 60 segundos. Pode ser no banho, ou até enquanto estás no elevador, parada na sinaleira ou esperando o filho sair da escola.
E o câncer não é só perder o cabelo. Cheguei a ouvir: ‘mas o cabelo cresce’. Sim! E agora eu tenho lindos cachos! Mas o câncer vai muito além. A mastectomia me deixou com menos mobilidade no braço (a parte estética eu nem levanto aqui, pois estamos falando de saúde).
A agressividade do tratamento, as sequelas. Eu hoje vivo com dores articulares que não quero nem descrever. Tenho que tomar medicamentos por quase 10 anos, e vivo com medo de o ‘danado’ voltar.
Não é nem um pouco agradável. Todas merecemos ter tempo para o autocuidado. Ninguém vai fazer isso por vocês”.
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Foi também durante um autoexame que a empresária Luciana Faistauer Mosmann, de Parobé, descobriu o câncer de mama aos 38 anos.
Sem histórico da doença na família, Luciana já fazia o controle a cada seis meses, desde 2017, depois que descobriu vários cistos e nódulos nas mamas.
“Eu havia feito uma ecografia mamária, em junho de 2019, e até então estava tudo ok. Mas, no final do ano, senti um caroço em um dos seios e então resolvi fazer um novo exame para ver o que era”, explica a empresária.





– Qual foi sua primeira reação ao ouvir do médico que seu nódulo era maligno?
“Na verdade não ouvi do médico, eu li na internet. Fiz minha biópsia do nódulo em Porto Alegre e peguei o resultado no site. Quando li, achei que não era verdade, fiquei em estado de choque, sem saber o que fazer. Mas não me desesperei, só pensava em resolver logo”.
– Como foi o seu tratamento e quanto tempo de duração ele teve?
“Depois do diagnóstico foi tudo muito rápido, contei com a orientação e apoio do meu amigo e oncologista doutor Eduardo Kunst. Consultei com uma mastologista, fiz a cirurgia para remoção do nódulo e, após 25 dias, iniciei as quimioterapias.
Esse ciclo durou 12 semanas, uma quimio por semana. Em seguida, fiz 15 sessões de radioterapia, ou seja, todos os dias indo e voltando a São Leopoldo, onde fiz as rádios durante três semanas. Depois disso continuei com uma medicação intravenosa, a cada 21 dias, até fechar um ano de tratamento.
O tratamento do câncer de mama durou um ano, hoje só tomo um comprimido, diariamente, e uma injeção, a cada 28 dias. Ambos para bloqueio hormonal.
– Qual foi a parte mais difícil de enfrentar no seu tratamento?
“Eu me sinto uma pessoa abençoada, tenho muita fé, pensamento positivo e uma força que nem eu sei de onde tirei. Encarei tudo de uma maneira leve, sem desespero e com muita vontade de vender essa luta.
Contei com uma rede de apoio maravilhosa da minha família, amigos, marido e filho, que rezou muito por mim, pela minha cura e para que eu ficasse bem durante o tratamento. Não tenho dúvida de que Deus ouve as crianças.
Meu tratamento foi muito tranquilo, não tive nenhuma reação das quimioterapias, passei super bem, não enjoei, não tive dores, fraqueza e tive a sorte de não perder todo o cabelo. Porém, quando terminei o tratamento do câncer de mama, fiz uma bateria de exames e descobri que estava com metástase óssea, câncer nos ossos.
Sem dúvidas essa foi a pior parte. Quando pensei que estava terminado, precisei recomeçar. Mais uma vez renovei minha fé e juntei forças.
Hoje faço tratamento para combater as lesões ósseas. Novamente, está sendo tranquilo, sem reações e o resultado está sendo maravilhoso, meu organismo está respondendo muito bem as quimioterapias e acredito que, em breve, estarei comemorando mais essa vitória”.
– Quanto tempo faz que você concluiu o tratamento?
“Faz sete meses. Terminei o tratamento contra o câncer de mama em março deste ano. E em abril iniciei o outro”.
– Atualmente, como é a sua rotina de exames preventivos?
“Faço mamografia, ecografia mamária e vou na mastologista a cada seis meses. Também faço acompanhamento com o ginecologista que descobriu e fazia o controle antes do diagnóstico.
A cada quatro meses, eu faço um Pet-CT [também conhecido como Pet-Scan, é um exame de diagnóstico por imagem (PET e CT) que, quando realizados em conjunto, são muito eficientes na detecção de cânceres e outras doenças].
Além dos exames de imagem e sangue que o oncologista solicita periodicamente”.
– Em sua opinião, a partir de qual idade a mulher deve começar a realizar exames de prevenção ao câncer de mama?
“Eu fiz minha primeira mamografia e eco mamária aos 35 anos, solicitada por um cirurgião plástico, antes de colocar próteses de silicone. Se eu não tivesse colocado próteses, nem teria feito.
Foi aí que descobri que tenho vários cistos e nódulos que devem ser monitorados, mas nunca houve suspeita, até então eram todos inofensivos’. Fazia exames a cada seis meses, estava tudo sob controle quando, de repente, surgiu esse nódulo maligno.
Acredito que todo cuidado é válido, e quanto antes o diagnóstico, melhor o resultado. Acho que deveriam começar aos 30 anos”.
– Que conselho você daria para as mulheres que não costumam dar muita atenção para esse tipo de exames?
“Já ouvi muitas mulheres dizendo que tem medo de fazer exames e descobrir alguma doença. Muito pior que descobrir a doença, é descobrir tarde demais.
Conscientizem-se de que o diagnóstico precoce aumenta as chances de cura. Hoje em dia, os tratamentos estão bem evoluídos”.


