
Você nunca vota só na pessoa
Ontem produzi uma matéria sobre a diferença entre crescimento linear e crescimento exponencial, o que ajuda a calcular juros compostos. Não parece tão divertida quanto a reportagem sobre gravidez psicológica canina, mas o tema é necessário.
Devido à pouca familiaridade da população com matemática financeira, muita gente acaba se prejudicando. O consumidor contrai uma dívida cujas parcelas crescem mais que sua capacidade de pagá-las. Na outra ponta, o investidor deixa de alocar recursos em aplicações rentáveis porque prefere ganhos imediatos – e, no longo prazo, ele perde a oportunidade de ficar rico.
Enfim, todo esse papo sobre valores e variáveis me fez lembrar de outra questão: as eleições municipais. Sim, porque votação também demanda somas e divisões.
A escolha para a prefeitura é até bem fácil de entender. Ganha a chapa que tiver o maior número de votos válidos, simples assim. Porém, na disputa à câmara de vereadores, pesam os tais do quociente eleitoral e do quociente partidário.
Vamos às contas? Digamos que o município tenha 50 mil votos válidos e dez vagas no legislativo. Dividindo-se a quantidade de votantes pelo número de cadeiras, chega-se ao quociente eleitoral de 5 mil. Esse é o patamar mínimo que um partido deve atingir para concorrer a um espaço na câmara.
Depois, vem o quociente partidário. Trata-se do volume de votos obtidos por todos os candidatos da legenda dividido pelo quociente eleitoral. Ou seja: quanto mais votos um partido receber, mais vagas vai ocupar na câmara de vereadores. Essas, por sua vez, serão distribuídas entre os candidatos mais votados do próprio partido, desde que cada um tenha alcançado pelo menos 10% do quociente eleitoral – 500 votos, no nosso exemplo hipotético.
Então começam os pontos polêmicos. Uma candidata pode receber 1,5 mil votos e não se eleger, pois seu partido totalizou menos de 5 mil. Já um candidato inexpressivo, com 500 e poucos eleitores, pode tornar-se vereador por estar numa legenda mais popular, que somou uma quantia maior de votos entre todos os correligionários. (Se restam dúvidas, o G1 tem um vídeo explicativo ainda mais detalhado.)
Não estou aqui para defender nem para difamar o sistema proporcional. O fato é que o sufrágio funciona dessa forma. Meu alerta, portanto, diz respeito à matemática envolvida. Precisamos entendê-la para não sair tão prejudicados quanto investidores ou consumidores que se confundem com juros compostos.
Quem apela àquela história de “voto na pessoa, não no partido” está se iludindo. Pelas regras do pleito, um candidato forte consegue carregar consigo alguns colegas para dentro da câmara, mesmo que esses não tenham sido a escolha popular. Em outras palavras, você elege um cara bacana e recebe de brinde um segundo, talvez não muito legal.
No mais, ninguém faz política sozinho. Criam-se alianças para a elaboração de projetos de lei, ou para pautar o governo em relação às urgências da sociedade. Sob esse aspecto, é bem provável que o indivíduo siga decisões partidárias para engrossar o coro.
Reconheço que, no âmbito municipal, as coalizões são mais pragmáticas que ideológicas. Estamos meio longe da polarização de Brasília, haja vista a cidade no interior do Paraná que uniu PT e PSL numa única chapa para a prefeitura. Quem diria!
Ainda assim, deve-se pensar com um mínimo de ideologia. Aí entram fatores éticos, filosóficos e “de Humanas” que nenhuma matemática eleitoral consegue explicar.
Ok, você pode dizer que os partidos não nos representam de verdade. Pode desconfiar das pesquisas de intenção de voto. Pode, inclusive, acreditar que as urnas são adulteradas e as eleições não passam de uma fraude. É seu direito abster-se do processo, se desejar. No entanto, isso só vai diminuir o número de votantes, reduzindo, também, o quociente eleitoral. Sua “rebeldia” torna mais fácil o caminho de ascensão dos vereadores. Tem certeza que é desse jeito que se muda o sistema?
Por Rafael Tourinho Raymundo
Jornalista, de Taquara
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