As cantorias dos voluntários do Plantão da Alegria percorrem os corredores do Hospital Bom Pastor (HBP) e contagiam os pacientes. Através das caras pintadas, dos narizes de palhaços e de muitos sorrisos distribuídos afetuosamente, o grupo tem transformado a rotina difícil de internação. As atividades recreativas proporcionam o bem-estar físico e emocional e amenizam o sofrimento causado pelas cirurgias e pelos medicamentos.
Primeiro, a moleza nas pernas. Depois, a falta de ar e a dor no peito. As convulsões, por último, forçaram o mecânico Dejair Ferraz da Silva, 35 anos, a procurar ajuda no Hospital Bom Pastor. Durante quase um mês internado, assistia da poltrona, ao lado do leito, as apresentações: “O pessoal é bem alegre. O cara está para baixo, eles entram e é só festa. Animam o ambiente."
A mulher de Dejair, Ester dos Santos, 34 anos, conta que a presença dos voluntários distrai a todos. A esposa acredita que este tipo de iniciativa eleva a autoestima dos pacientes, é um momento em que descontraem e riem. “Dá para esquecer que estão no hospital”, pontua ela, que trabalha em uma fábrica de calçados durante o dia e passava as noites acompanhando o marido.
A visita em cada quarto é breve – aproximadamente dez minutos –, mas o suficiente para injetar doses de alegria nos pacientes e reanimar as esperanças. O aposentado Darci Beck, 61 anos, internado durante duas semanas, deixou-se contagiar pelas palhaçadas e canções dos voluntários. Sorrindo, garante que a ação é a felicidade dos pacientes, muitas vezes angustiados pelos dias de internação. “Dá ânimo para continuar”, ressalta o morador do interior de Igrejinha, que aguardava cirurgia para pedra na vesícula.
A presença dos ilustres plantonistas traz leveza aos quartos, garante a psicóloga clínica e organizacional do HBP, Marcia Helena Assmann. “O paciente esquece que está em um ambiente hospitalar. Eles voltam a sorrir e isto é recompensador”, argumenta, ao ressaltar que as atividades de recreação terapêutica auxiliam no tratamento médico. Os voluntários cantam, fazem piadas, contam histórias. Marcia destaca que é um trabalho em cima da teatralização, uma forma lúdica para superar a rotina hospitalar.
O Plantão da Alegria nasceu inspirado em outras iniciativas similares existentes em hospitais de diversos países, como conta a relações públicas do HBP, Renata Eidelwein, que indicou a criação do projeto. Atualmente, cerca de 20 voluntários revezam atendimentos de segundas a quintas-feiras. Os integrantes visitam a recepção, passam pela observação, emergência, quartos de internação, alas da saúde mental e pediátricas.
A procissão animada segue pelos corredores da casa de saúde. Em um dos quartos visitados está Iracema Wingert Ponath, 81 anos, internada por infecção no braço direito. Reflexiva, a aposentada resume o sentimento desapertado com as palhaçadas: "Isto dá mais ânimo para viver". A filha Nelita Ponath, 59 anos, concorda com a mãe e complementa que "a vida não pode ser só de tristeza, eles nos alegram".
Estimular sentimentos positivos em meio a dores e angústias é o principal desafio dos integrantes do Plantão da Alegria. Adriana Moreno, ou Doutora Biluka Maluka, quando incorpora a personagem, é uma das primeiras voluntárias. “Ninguém (os pacientes) está aqui por desejar. Mas saber que podemos melhorar um pouco a passagem deles, isso é gratificante”, conta.
As vozes alegres que viajam pelos corredores são aguardadas por Lori Holzbach, 54 anos, internada para o tratamento contra a depressão. Ela diz se distrair e esquecer que está no hospital durante as visitas regadas a músicas e piadas. “Me sinto feliz. Para mim é muito bom, é uma felicidade”, garante. O marido Pedro Holzbach conta que a energia transmitida pelos voluntários faz vibrar as emoções.
EXEMPLO PARA OUTROS HOSPITAIS
O trabalho realizado pelo Plantão da Alegria foi destaque no Encontro de Educação em Saúde Coletiva e Humanização e na III Mostra de Trabalhos, ambos desenvolvidos pela 1ª Coordenadoria Regional de Saúde, em julho, nas Faculdades Integradas de Taquara (Faccat). A relações públicas do HBP, Renata Eidelwein, conta que estão à procura de patrocinadores para ajudar na manutenção do grupo. Semana passada, foi apresentado um projeto similar para o Hospital São Francisco de Assis, em Parobé. Já estão abertas vagas para voluntários.


