Do meu tuíter @Plinio_Zingano – Triste pedagogia matemática: ensinar o Binômio de Newton a quem não sabe a diferença entre “número” e “algarismo”.
VOU FAZER VOCÊ FELIZ
Quando o assunto é amor, existe a crença romântica de ser possível, voluntariamente, se fazer alguém feliz. O problema com a afirmação é, justamente, a própria: “eu farei tudo para fazer você feliz”. Como pode ser isso? Haverá algum manual a ser seguido para encontrarmos ou produzirmos felicidade? Fico imaginando: “Página 10 – Agora, aja da seguinte maneira…”; “Página 25 – Neste ponto você vai produzir a felicidade; basta dizer…”. É impossível!
Iniciar qualquer relacionamento amoroso – ou mantê-lo –, argumentando com a certeza de atingir aquele objetivo é o cúmulo da ingenuidade, digna de um Werther, ou de declarada má intenção. Felicidade não tem, ao contrário do apregoado pelas telenovelas e pelos livros água-com-açúcar (ainda os há?), um modelo pronto para ser seguido. Na realidade, ninguém pode dizer quais são os procedimentos para se chegar lá. Pior, ainda: nós não conseguimos nem determinar, exatamente, quais os passos a serem seguidos para conseguirmos a nossa própria felicidade. Sabem por quê? Pela mesma razão exposta acima: falta (por absoluta inexistência) do dito manual.
Podemos pensar, talvez, que determinada coisa nos faria imensamente felizes. Só para tentar quantificar essa afirmação, digamos, a felicidade viria agasalhada por uma determinada quantia de dinheiro (se “dinheiro” não lhe agradar, use outra palavra). Pronto, uma loteria resolveria o problema! Ganhamos a tal bolada e partimos para a consecução do nosso objetivo. Mas não funciona assim, não é? Longe de mim deixar a impressão piegas de afirmar que dinheiro não traz felicidade. Tanto pode trazer como não. Aí, começa a desconfiança a respeito daquela afirmação tão comum nas cartas de amor, nos livros, nas novelas e no Facebook. Se nem o dinheiro, com seu poder de mover até montanhas (mais do que Maomé), consegue produzir a felicidade na totalidade dos casos, onde, então, a encontrar?
Quando alguém diz que vai fazer outro feliz, está apenas querendo a presença física dessa outra pessoa para ter a sua, e desejada, felicidade pessoal. Esse papo de ficar feliz no amor apenas ao ver o outro assim é papo bem fosco. Afirmar conseguir fazer outrem feliz, supõe uma capacidade de atingir esse estátus; mas o real objetivo é trazer a condição para si mesmo. Do contrário, estaríamos, bondosamente, espalhando o sentimento por todos os lugares, sem olhar quem o receberia. Seria, quase, a santidade.
Não é à-toa haver tantas agressões entre casais, por exemplo. Quando um se dá conta de não conseguir levar o outro ao sentimento proposto, esquece ligeirinho a assertiva de que o importante é ver-lhe o bem-estar. Parte para a cobrança daquilo que supõe ter sido seu trabalho. Cobra, com violência, a sua infelicidade.
Felicidade existe, sim, mas independe das ações de qualquer pessoa. Não há regras a serem seguidas para atingir o objetivo. Às vezes, uma simples presença faz brotar o sentimento. Ninguém pode, por mera decisão, tornar o outro feliz. Lamentavelmente, o contrário é bem fácil. Por mais paradoxal que pareça, para isso existe manual.


